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A Mente das Sociedades Secretas Imprimir e-mail
04-Nov-2007
MenteO BelezaPT.com apresenta uma interessante abordagem sobre Sociedades Secretas e de que forma estas se ligam à mente de cada um de nós. Informação adicional pode ser envontrada em Terra Espiritual Org

Os Assassinos

Os Assassinos – cujo nome alguns afirmam derivar da palavra árabe hashishin, que significa “usuários de haxixe”, mas que talvez denominasse os seguidores de Hasan – apareceram pela primeira vez no século XI como uma ordem religiosa secreta. Seita derivada da religião ismaelita, os Assassinos acreditavam que a cadeia da criação tinha sete elos e que a sabedoria divina seria revelada ao homem em cada junção, à medida que ele caminhasse em direção à Deus. Os que buscavam a iluminação passavam por uma iniciação especial antes de ascender a cada novo estágio de conhecimento. Segundo alguns relatos do século XIX, as revelações em cada novo nível negavam tudo que fora ensinado anteriormente. No mais alto estágio, o segredo supremo dos Assassinos era revelado: céu e inferno eram uma única e mesma coisa, todas as ações eram sem sentido e não havia bem ou mal, exceto a obediência ao rei-sacerdote.

O fundador e grão-mestre dos assassinos, Hasan-i Sabbah,  intitulado o "Velho da Montanha",  foi ficando cada vez mais poderoso no mundo árabe e estabeleceu-se como um príncipe independente. Somente ele mudava os papéis dos iniciandos ismaelitas para o de Assassinos, guerreiros cuja arma favorita era a adaga e para os quais encontrar a morte durante a realização de um assassinato era uma honra. Em geral, os Assassinos atacavam líderes políticos e eram objeto de admiração e medo. Segundo Marco Pólo, “ninguém que o Velho (Hasan) tenha decidido matar pôde escapar, e dizem que mais de um rei paga-lhe tributo por temer por sua vida”.

A seita era rigidamente estruturada em graus de iniciação crescente. Sua sede era uma fortaleza legendária em uma montanha a sudoeste do Cáspio chamada Alamut, o Ninho do Gavião. Privilegiada por sua geografia, impõe-se na paisagem como uma aparição monumental, aterradora e só tinha como acesso uma trilha sinuosa, que podia ser defendida por um único arqueiro. Abaixo do Velho da Montanha estavam os grandes priores (governadores provinciais), os priores (missionários), os iniciados e os noviços. Chamavam a si mesmos de "fedains" e sua causa de "jihad hafi", a "guerra santa secreta".

O recrutamento era simples: seus agentes observavam atentamente os jovens mais aptos, mais inteligentes e inconformados com uma situação social que não lhes dava chance. Camponeses, pastores, artesãos, qualquer um podia de repente, por meio de um pouco de ópio, adormecer e acordar em uma caverna maravilhosa, cercado de luxo, comida, bebida e lindas mulheres que o tratavam como a um príncipe. Dentre os muitos prazeres que eram oferecidos ao novo agente o haxixe figurava com destaque, em constante abundância.

Ao cabo de uma semana durante a qual já não podia mais diferenciar o sonho da realidade aparecia-lhe um dos iniciados que lhe dizia que aquele era o Paraíso dos seguidores fiéis do Velho da Montanha, verdadeiro cumpridor das palavras do Profeta. Suas instruções eram, na verdade, muito simples: devia apenas ficar de prontidão, podendo ser chamado a qualquer hora. Sua missão era igualmente simples: obedecer.

Qualquer ordem podia ser esperada e deveria ser cumprida a risco da própria vida. Se morresse na tentativa (geralmente um assassinato) voltaria imediatamente para o Paraíso e lá desfrutaria eternamente dos prazeres dos quais tivera apenas uma pálida idéia. Se falhasse nunca mais o veria e se revelasse o segredo pagaria com a vida. Um método simples e muito eficiente. Em pouco tempo os Assassinos se revelaram a maior potência política do Oriente Médio e mesmo os Templários e os Cruzados tiveram que negociar com eles. Ninguém podia ocultar-se à sua vingança. Nizamu'l-Mulk, primeiro-ministro do sultão à época da conquista de Jerusalém, foi apunhalado em sua liteira por um deles, que se aproximou disfarçado de dervixe. O atabeque de Hims, mesmo cercado de guardas é morto por agentes suicidas. O marquês Conrado de Montefeltro foi atacado em um banquete por dois Assassinos disfarçados de monges cristãos, dos quais haviam treinado perfeitamente o idioma e os costumes. Naturalmente, foram mortos na hora, como era esperado. Além disso, as artes da sedução e do envenenamento também não lhes eram estranhas. Hasan-i Sabbad morreu em 1124 e com a morte dele o poder dos assassinos começou a diminuir. A seita cindiu-se e, por volta de 1166, os assassinos persas voltaram a uma fé mais ortodoxa. É fácil, portanto, perceber porque semearam o terror na Síria e na Pérsia até que o último dos Velhos da Montanha foi derrotado pelos mongóis em 1256. Mesmo assim, a seita subsistiu na Síria até ser finalmente dispersada pelo sultão mameluco do Egito e, ainda hoje, há indícios de que exista nesses dois países e também na Índia.

 

Cabalistas

 

A palavra Kabbalah vem do hebraico, e significa “aquilo que é recebido”. A cabala é um sistema metafísico ou místico pelo qual os eleitos conhecerão Deus e o Universo. Este sistema eleva-los-á acima do conhecimento comum e leva-los-á a compreender o significado profundo e o plano da criação. Estes segredos são imanentes na sagrada escritura, embora não se destinem a ser entendidos pelos que interpretam o texto literalmente. O Velho Testamento é um livro de símbolos; as suas narrativas são o manto que cobre revelações divinas. “Ai daqueles que tomam o manto pela lei”. Para estes, tais relatos singelos constituem a verdade total. Se assim fosse não poderíamos chamar à Sagrada Escritura o  Livro dos Livros; se os homens sábios de hoje se reunissem e elaborassem em conjunto um livro semelhante, seria sem dúvida mais coerente, menos obscuro e menos chocante.

As letras hebraicas em que estão escritos os textos sagrados não são apenas signos inventados pelo homem para registrar fatos, eventos e pensamentos. As letras e os números são reservatórios de poder divino. “Os números e caracteres imutáveis”, diz Agrippa, “exalam a harmonia de Deus, sendo consagrados com o auxílio divino. Por esse motivo, as criaturas do alto temem-nos e as da terra tremem perante eles”. A tarefa do cabalista consiste em desvendar este significado oculto através de métodos transmitidos pela tradição. As verdades assim obtidas estão em conformidade com os princípios estabelecidos pelos fundadores da cabala. Mas quem eram estes fundadores? A história e a lenda discordam sobre esta questão. Lemos em textos cabalísticos que Deus em pessoa deu a conhecer a cabala em tempos bíblicos: Adão recebeu do anjo Raziel um livro cabalístico e através desta sabedoria foi-lhe possível vencer a angústia causada pela sua queda e recuperar a dignidade. O Livro de Raziel chegou às mãos de Salomão que submeteu a terra e o inferno graças a ele. Numa outra narrativa, o Livro Yetzirah é atribuído a Abraão; porém a opinião dominante é a de que Moisés recebeu no Sinai a chave para a interpretação mística das Escrituras. Ninguém anteriormente a Esdras (século V a.C.) fizera tais interpretações. Cerca de meio século após a destruição de Jerusalém, o rabino Akiba escreveu o Livro Yetzirah e o seu discípulo, o rabino Simão bar Yohai, compôs o Zohar. Eis tudo o que interessa saber sobre a lenda, sempre dada ao maravilhoso, ainda que não erre inteiramente ao situar a origem da cabala na época pré-cristã. Cento e cinqüenta anos antes de nossa era existia em Israel uma cosmogonia baseada em letras. É igualmente provável que o clero hebraico cuidasse das tradições orais à semelhança do que faziam os sacerdotes de outras nações. Que estas tradições empíricas existiam a par das escrituras é o que podemos concluir por Esdras quando se refere à revelação feita a Moisés: “Estas palavras”, diz Deus, “revelarás e estas ocultarás” (II, 14:5,6).

Não encontramos vestígios de uma época tão venerável nas numerosas obras da cabala, mas muitas das suas idéias estão latentes nos textos apocalípticos escritos nos séculos I e II da nossa era. Todavia, a origem de uma doutrina cabalística bem definida deverá ser situada numa época mais recente. Durante o período demarcado pelos fins do século VI d.C. e primeira metade do século XI, as influências neoplatônicas e pitagóricas transformaram a maior parte do saber num sistema metafísico de caráter especulativo. Tal mudança ocorreu não na Palestina, mas na Babilônia, onde os Geonim – presidentes da academia judaica – deliberavam sobre questões religiosas. Os indivíduos dignos a quem fossem revelados os segredos eram conhecidos por Mekkubalin. O mais antigo livro cabalístico, o Livro Yetzirah (formação) surgiu no período atrás referido. A palavra cabala, no entanto, não aparece na literatura antes do século XI, e o Livro Zohar (luz) parece ser um produto da fase final do século XIII, época em que a cabala deu origem a uma vasta literatura. O Zohar era e é considerado o livro sagrado, o pilar da sabedoria cabalística, devendo a sua configuração atual ao famoso Moisés de Leon (1250 – 1305).

A cabala denuncia a influência da filosofia e esoterismo gentílicos nas idéias fundamentais de que o plano da arquitetura do mundo pode ser entendida pelo homem e que o ser divino pode ser compreendido (ainda que não inteiramente) através da especulação. A noção cabalística de que o mundo foi edificado com base em números e letras proveio da filosofia grega. No Timeu, Platão debruça-se sobre as dimensões em que o universo está construído. Os filósofos neopitagóricos entendiam os números e letras como seres divinos dotados de poderes sobrenaturais. Estranha à antiga teologia hebraica é também a noção cabalística dos Sefirots, manifestações da existência de Deus na criação. Eles têm afinidades com as inteligências neoplatônicas, intermediários entre o mundo do inteligível e o mundo material.

Os dez Sefirots estão contidos em Adão Kadmon, o homem primordial a quem São Paulo provavelmente faz alusão quando afirma: “Deus criou um Adão celeste no mundo espiritual e um Adão terreno, de barro, destinado ao mundo material”. (I Cor. 15:45-50.) E num livro sagrado hebraico, o Midrash, afirma-se que este primeiro Adão é  Messias cujo espírito é sempre presente. Esta noção de que as coisas e os seres existem como idéias antes de serem materializados fora já expressa por Platão e Zoroastro. Além disso, aparentado com a doutrina zoroastriana é também o cabalístico Em Soph, a divindade ilimitada e ininteligível de que emanaram os Sefirots, tal como todas as coisas emanaram do zoroastriano Zrvan Akaran, o deificado espaço-tempo.

Existem outras afinidades entre a doutrina da cabala por um lado e as doutrinas gnósticas, as doutrinas da escola de Alexandria, a filosofia de Fílon e a dos estóicos por outro. Os cabalistas primitivos, como não quisessem ignorar ou não pudessem resistir a tais influências, tiveram de enfrentar o problema de encontrar a forma de aceitá-las sem violentarem as escrituras existentes, que haviam sido inspiradas por Deus e não podiam conseqüentemente ser alteradas. A solução que encontraram foi “ler” nos textos antigos as idéias que desejavam encontrar neles e afirmar que tais idéias tinham estado ocultas desde o princípio nas Sagradas Escrituras. Para o provarem, recorriam a meios tais como a alteração do valor das letras ou a substituição de uma letra por outra, formando deste modo novas palavras de acordo com os preceitos cabalísticos. Tal procedimento pode servir igualmente bem às mais variadas doutrinas e, na realidade, fora já utilizado na interpretação do Talmude. Além disso, das práticas bibliomânticas às operações mágicas não vai senão um passo. A cabala prática é uma simples forma de magia, tendo em vista obter efeitos prodigiosos através do poder da palavra falada.

Apenas aqueles que estavam determinados a serem dignos do conhecimento – os que possuíam os motivos e ideais mais puros – eram escolhidos para estudar a cabala. No livro Yetzirah, os iniciandos descobriam uma teoria expandida da criação do universo. De acordo com ele, o mundo espiritual era formado por dez esferas, os Sefirots (sefirot é um termo relacionado com a palavra hebraica sappir, traduzida livremente como “safira”, e interpretada como o esplendor de Deus). Cada um dos Sefirots representava uma força ou aspecto diferente de Deus, tal como o amor, o poder ou o entendimento. Dizia-se que esses aspectos emanaram, ou se desdobraram de Deus. Posto que os Sefirots incorporavam todos os aspectos da criação. Geração e decadência. Elas representavam o próprio universo.

Ligando as dez esferas há 22 caminhos, que correspondem às 22 letras do alfabeto hebraico, e, juntas, as esferas e os caminhos constituem a “árvore da vida”, a representação visual da criação. O Yetzirah detalhava também os significados místicos de cada letra do alfabeto hebraico e perscrutava um sistema de interpretações ocultas de várias combinações de letras.

Através da meditação e da oração. Os devotos procuravam escalar a árvore da vida, experimentar as Sefirots e explorar a relação entre a humanidade e o universo – em resumo, atingir a iluminação divina mediante a ascensão.

Uma espécie de guia que descrevia a paisagem a ser explorada nessa viagem espiritual era o Zohar. Esse texto de ensinamentos, central para os que estudam a sabedoria mística antiga, era um comentário místico sobre o Pentateuco. Continha uma mistura de histórias, poesia, comentários e visões baseadas em idéias e símbolos cabalísticos.

A árvore de Sefirots encontra-se no coração da cabala, e é o seu símbolo mais representativo e multifacetado. Os Sefirots são os dez números primordiais que, combinados com as vinte e duas letras do alfabeto hebraico, representamo plano de criação de todas as coisas superiores e inferiores. São os dez nomes, atributos ou poderes de Deus, e formam um osganismo palpitante a que se chama “o rosto místico de Deus” ou o “corpo do universo”. Assenta nos três pilares da misericórdia (direita), da severidade (esquerda) e do equilíbrio central. O pilar central forma a espinha dorsal através da qual o orvalho divino flui para o ventre. Na criação apenas são visíveis os efeitos dos sete Sefirots inferiores , já que a tríade superior atua fora do tempo e para lá da compreenção. No sistema dos quatro mundos, corresponde ao mundo da luz divina (Aziluth), separado por um véu das duas tríades inferiores do mundo do trono (beriah) e do mundo dos anjos (Yetzirah). O Sefirot mais baixo, Malchut, é identificado com Assia, o protótipo espiritual do mundo material.

 

Carbonários

 

Para um aluno de História, uma pergunta das mais complicadas seria indagar sobre a relação entre as tradições dos carvoeiros das florestas da Alemanha no século XVIII e a desesperada luta dos libertários italianos no século XIX para criar uma nação unificada na península dos Montes Apeninos. O nome comum a ambos os grupos, "carbonários", é a pista. A palavra significa "carvoeiros", e, no contexto da política liberal e nacionalista do século XIX, a queima do carvão veio a simbolizar a purificação das idéias e a propagação dos ideais de liberdade, moralidade e progresso.

Originalmente, os Carbonários eram membros de uma guilda, uma espécie de sindicato ou associação de trabalhadores de uma determinada categoria, que provavelmente começou a existir na Idade Média, mais ou menos à mesma época da franco-maçonaria. Enquanto os rituais dos maçons se baseavam no ofício de pedreiro, os dos carbonários, que incluíam não apenas carvoeiros, mas também lenhadores da floresta, carpinteiros e artesãos em madeira, se remetiam aos ofícios associados ao corte da lenha e ao trabalho em madeira. Os membros em cargos mais elevados recebiam alcunhas baseadas em nomes de árvores, como “irmão Carvalho” ou “irmão Olmo”; sua mesa de reuniões conhecida como O Cepo e suas cadeiras eram montes de gravetos. Tal como ocorria entre os maçons, os seus membros usavam aventais de couro vermelho, e, em suas reuniões ordinárias, cercavam-se de objetos aos quais atribuíam valor simbólico: machados, serras, pedaços de madeira de tamanhos variados e coroas de folhas de carvalho.

O motivo pelo qual essa sociedade masculina, baseada em um ofício tradicional, veio a transformar-se em uma sociedade secreta com forte orientação política nunca foi totalmente esclarecido. O que se sabe é que essa mudança se efetuou entre 1807 e 1812 no sul da Itália, quando um certo Marghella, que era ministro da policia no Reino de Nápoles e da Sicília, tornou-se um patrono dos carbonários. Nessa época, quem estava à frente do reino era o ousado Joachim Murat (1767 – 1815), um dos principais generais de Napoleão, assim como cunhado do imperador.

Marghella tinha como objetivo a unificação da Itália sob o regime de monarquia constitucional, para depor governantes estrangeiros como Murat. Ele convenceu os carbonários a aderir a seus planos, e foi provavelmente essa mudança que os transformou numa sociedade que seguia rígida organização militar, com membros armados, e que passou a exercer poderosa influência política no decorrer dos anos seguintes. Muitos historiadores estão convencidos de que os carbonários se envolveram em quase todas as rebeliões mal sucedidas que sacudiram o reino de Nápoles e da Sicília até 1835. Esses primeiros movimentos de libertação foram por fim sufocados por volta de 1850, mas o sonho da unificação italiana permaneceu. Essas idéias se propagaram ao longo de toda a península e acabaram sendo postas em prática por homens como Camillo Cavour, o primeiro ­ministro do Estado nortista do Piemonte, e o famoso líder guerrilheiro Giuseppe Garibaldi.

Mesmo na França, onde era conhecida como "Charbonnerie", a sociedade dos carbonários se tornou uma associação política. Seus membros apoiavam a criação de uma monarquia constitucional na Itália, mas na       França defendiam a volta da república, principalmente depois de 1820, quando os reis Bourbons combatiam violentamente os ideais liberais. O ramo francês dos carbonários pode ter tido um papel importante nas revoluções de 1830 e 1848, mas isso ainda não foi confirmado.

Sabe-se, contudo, que.eles deram assistência a Napoleão III – o sobrinho de Napoleão Bonaparte -, ajudando-o a chegar ao poder. Na Itália, por volta de 1870, assim que a nação italiana nasceu, os carbonários desapareceram do cenário político, o mesmo acontecendo com a "Charbonnerie" francesa.

 

Druidismo

 

Ao mesmo tempo que estavam abraçando os cultos mediterrânicos dos mistérios, os romanos tentavam esmagar uma seita pagã que grassava no extremo norte de seu império. Nas florestas da Gália (atual França) e nas brumosas Ilhas Britânicas, as tribos célticas veneravam um panteão de deu­ses rústicos e espíritos dos bosques. Os sustentáculos dessas crenças eram os druidas. Estes pare­cem ter desempenhado um papel abrangente na so­ciedade céltica. De acordo com as poucas fontes literárias gregas e romanas que chegaram até nós, os druidas eram sacerdotes e filósofos, educadores, árbitros e curandeiros. Eles não só supervisionavam todas as observâncias rituais e religiosas, como tam­bém, segundo Júlio César em seu Commentarii de Bello Gallico (Comentários sobre a Guerra Gálica), de 51 a.C., eles estudavam "as estrelas e seus movimentos, o tamanho do universo e da terra, a natureza das coisas, o poder dos deuses imortais". Como depositários dos conhecimentos culturais em uma sociedade sem escrita, os druidas passavam a vida inteira memorizando as leis e os épicos célticos. Seu poder político era pelo menos equivalente ao do rei, que eles mesmos escolhiam entre os membros da família real, e a quem aconselhavam em questões de estado e de guerra. Ocasionalmente, serviam como comandantes nas batalhas embora por lei não fossem obrigados a prestar serviço militar, nem a pagar impostos. Conheciam as ervas e plantas usadas para tratar diversas doenças e praticavam numerosos métodos de adivinhação; dizia-se de um druida irlandês chamado Fingen que ele era capaz de diagnosticar a doença de um homem pela fumaça que saía da chaminé do enfermo. Relata-se que os druidas também instruíam crianças sobre as tradições culturais e costumes da orem druídica para que algum dia elas pudessem juntar-se à seita. Aparentemente, os druidas eram recrutados entre os membros das classes superiores da sociedade celta e passavam por três níveis, ou graus, de autoridade: vates, os que praticavam a adivinhação; bardos, recitadores de poesia sagrada; e druidas, encarregados das cerimônias rituais. Todos eles vieram a ser conhecidos; de maneira geral, como druidas. Eles escolhiam um dia por sema­na para a observância religiosa e presidiam quatro festivais sazonais por ano. Tal como os seguidores de Mitra, os celtas comemoravam o solstício de inverno no dia 25 de dezembro; diz-se que os ritos de iniciação eram realizados durante essa cerimônia e também nas que celebravam o solstício de verão e os equinócios de outono e de primavera. A grande comemora­ção anual de Beltane, ou dia de Maio, celebrava a ressurreição do sol. Realizavam-se banquetes rituais e faziam-se danças; e, segundo uma fonte, à meia-noite, em um bosque sagrado ilumina­do por fogueiras, um iniciando recriava a morte e o renascimen­to simbólicos de Hu, o deus do sol dos druidas.

Segundo Plínio, o Velho, os momentos de certas cerimônias druídicas eram determinados pela rara aparição de visco crescendo no tronco de um carvalho. Um druida vestido com um manto branco escalava a árvore e, com uma foice de ouro, libertava a planta parasítica, na qual se acreditava estar o espírito do carvalho, uma árvore sagrada. Seguia-se um grande banquete e dois touros brancos eram sacrificados.

Muitos festivais druídicos eram ritos de fertilidade agrícola, e os sacrifícios animais faziam sem dúvida parte deles. É quase certo, porém, que durante alguns rituais - às vésperas de uma batalha, ou quando uma pessoa importan­te ficava doente - os druidas sacrificavam seres humanos também. César afirmou que os pagãos construíam enormes gaiolas de vime com formas humanas, abarrotavam-nas de vítimas e ateavam fogo aos ramos. Embora os ofertados aos deuses fossem, quase sempre, criminosos condenados, explicou ele, vítimas inocentes eram sacrificadas se houvesse poucos malfeitores. Certas fontes asseveram que os druidas sacrificavam até seus próprios pares, se preciso. O autor clássico Deodoro Sículo também relatou cenas de sacrifícios humanos. "Quando tentam a adivinhação de questões importantes, realizam um costume estranho e incrível, pois ma­tam um homem com uma facada acima da cintura." Depois que a vítima caía morta, prosseguiu Deodoro, "previam o futuro pelas convulsões de seus membros e pelo derramamento de seu sangue".

Alguns historiadores duvidam da precisão de tais relatos: César, muito provavelmente, enfeitou a descrição dos selvagens célticos para justificar as Guerras Gálicas, e é provável que os outros relatos não sejam de autoria de testemunhas oculares. Apesar disso, outras autoridades acreditam que as velhas narrativas históricas não se afastam demais da verdade. Com certeza, a descoberta, em 1984, dos restos do Homem de Lindow na turfeira de Cheshire reforçou a hipótese de que os druidas de fato faziam sacrifícios humanos. As autoridades romanas na Gália e na Bretanha toleravam este e outros ritos religiosos druídicos, mas temiam o poder político dos druidas entre as tribos subjugadas. No ano 54 de nossa era, foi emitido um decreto abolindo a religião druídica, e sete anos depois foi lançada uma campanha para    eliminar os últimos vestígios da seita pagã. Um confronto final teve lugar em Anglesey, uma ilha ao largo da costa noroeste do País de Gales, bastião do druidismo. Segundo o célebre historiador romano Tácito, quando os barcos romanos chegaram à praia, druidas de longas barbas, bem como mulheres vestidas de negro, saltaram com tochas dos bosques, gritando, uivando, lançando pragas contra os invaso­res. Infelizmente, toda essa fuzilaria verbal mostrou-se impotente contra o aço das espadas curtas dos romanos; os guerreiros abateram tudo e todos os que encontraram em seu caminho. Nem mesmo as árvores do bosque sagrado - que Tácito descreveu como manchado pelo sangue dos cativos - foram poupadas.

A carnificina de Anglesey, bem como a conversão dos celtas ao cristianismo, eliminou efetivamente a influência druídica no mundo antigo. Só no País de Gales e na Irlanda o druidismo sobreviveu até a Idade Média, na tradição bárdica de memorizar poemas épicos. Os tempos modernos, contudo, assistem a um renascimento da seita. Hoje, seus seguidores limitam-se a lutar pela pro­moção das idéias e princípios da civilização céltica. No entanto, alguns grupos dissidentes mantêm o que afirmam ser as tradições místicas dos druidas. Engalanados em mantos brancos, esses druidas, bardos e vates contemporâneos, recriam as ceri­mônias iniciáticas e os festivais sazonais - sem, é claro, os sacrifícios humanos - em Stonehenge e em outros locais seme­lhantes em toda a Inglaterra. As seitas modernas parecem atraídas por esses megálitos, e muitas delas acreditam que os antigos druidas foram os que erigiram as colunas em Stonehenge. Tais colunas, porém, são pelo menos mil anos mais antigas que a che­gada dos primeiros druidas à Bretanha. E muito embora seja quase certo que os druidas tenham usado esse monumento como observatório para marcar a chegada das estações, essa antiga seita parecia preferir a privacidade dos bosques sagrados para conduzir os ritos clandestinos de sua fé pagã.

Por volta do ano 300 de nossa era, o cristianismo havia substituído o druidismo e as antigas religiões dos mistérios, como religião oficialmente reconhecida do Império Romano. Os bre­tões pareceram abraçar o novo sistema de crenças com mais alarde do que outras nações, talvez porque o cristianismo primitivo tivesse características em comum com o druidismo: a imortali­dade da alma, a crença nos milagres e, segundo alguns estudiosos, a fé na reencarnação.

 

Gnósticos

 

Paralelamente ao crescimento do cristianismo nos primeiros séculos de nossa era, havia diversos movimentos poderosos cujas visões de Deus, da humanidade e do universo eram bem diferentes das da corrente principal da fé cristã. Um desses grupos era o dos gnósticos, que derivaram o nome de gnosis, palavra grega para "conhecimento". Em geral, o pensamento gnóstico misturava o cristianismo às idéias de Platão e de outros filósofos helênicos que viam o universo em termos de estados reais e ideais do ser. O mundo "real", corrupto e imperfeito, da terra e da carne, só podia ser conhecido pelos sentidos; ao contrário, o reino "ideal", perfeito, de Deus, só podia ser abordado através do conhecimento do coração. Os gnósticos acreditavam ser entes espirituais forçados a habitar em um corpo e a viver em um mundo de pecados. Uma vez, porém, recebida a gnose, conhecimento revelado unicamente a eles por Cristo, a redenção completa seria alcançada. Segundo os escritos de um grupo de gnósticos, esse conhecimento especial revela "quem éramos, e em que nos transformamos; onde estávamos, e onde fizeram que caíssemos; para onde nos apressamos, e de que nos estamos redimindo; o que é o nascer, e o que é o renascer". Para os gnósticos, há dois tipos de pessoas - os que estão presos à terra e à carne, e os que podem ser iluminados. Os iniciandos eram escolhidos dentre este último grupo, para buscar a libertação em relação ao corpo e a toda a matéria física, por vários caminhos. Alguns mestres achavam que o êxtase proporcionava a iluminação divina, enquanto outros defendiam o jejum e a meditação. Os gnósticos eram uma sociedade fechada; dizia-se que portavam pedras inscritas com serpentes e outros símbolos, como talismãs e como prova de iniciação, e que empregavam senhas e apertos de mão secretos como meios de identificar-se para outros membros da seita.

 

Golden Dawn

 

A segunda sociedade ocultista mais importante da segunda metade do século XVIII, a Ordem da Aurora Dourada (Golden Dawn), era muito menor que a Sociedade Teosófica, e nunca chegou a contar com mais de 300 membros em um mesmo período, mas sua influência foi muito maior que a sugerida pelo número de seus afiliados. Fundada três anos antes da morte de Helena Blavatsky, a nova organização foi estabelecida, pelo menos em parte, como uma reação ocidental ao orientalismo da Sociedade Teosófica. Apesar de envolta em mantos egípcios, a Aurora Dourada tinha escoras greco-romanas e evocava a fraternidade cristã dos rosa-cruzes. Todos seus membros fundadores eram, com efeito, rosa-cruzes e maçons. A Aurora Dourada também dava ênfase ao tipo de rituais secretos elaborados que Helena Blavatsky, com suas noções de simplicidade indiana, abominava; as reuniões da Sociedade Teosófica eram conduzidas segundo procedimentos que não eram mais misteriosos do que as Regras de Ordem de Robert.

O nome completo do novo grupo era Ordem Hermética da Aurora Dourada mas, para manter o segredo, quando em público seus membros referiam-se a ela como a AD. Tal como muitas coisas acerca da Aurora Dourada, suas origens estão envoltas pelas brumas da disputa. Segundo registra a tradição da própria ordem, ela começou em 1880, quando o reverendo A. F. A. Woodford, um membro do clero anglicano que também era maçom, deparou em uma livraria londrina com um lote de manuscritos, em linguagem cifrada, aparentemente de impressionante antigüidade. Em 1887 os manuscritos acabaram caindo nas mãos do doutor William Wynn Westcott, um médico que fora nomeado legista da região norte de Londres. Também era maçom praticante, membro da Sociedade Rosa-cruz da Inglaterra e teósofo.

Folheando os manuscritos, Westcott supostamente encontrou uma carta, escrita em alemão, aconselhando quem quisesse mais informações a contatar Sapiens Dominabitur Astris ("o sábio será governado pelas estrelas", em latim), que veio a ficar conhecido nos círculos da Aurora Dourada como SDA A carta dizia que SDA podia ser encontrado através de uma certa Fräulein Anna Sprengel, cujo endereço na Alemanha era gentilmente fornecido. Logo estabeleceu-se uma animada correspondência. Decifrados os manuscritos, descobriu-se que eles continham anotações e esquemas que esboçavam a silhueta de cinco rituais para uma sociedade oculta. Em pouco tempo Westcott recebeu instruções de SDA para poder preencher o esboço com rituais plenamente desenvolvidos e para recrutar iniciandos ­ou pelo menos é isso que diz a história oficial. No entanto, há fortes indícios que sugerem que os manuscritos cifrados, longe de estarem enraizados na antigüidade, foram escritos depois de 1870, provavelmente pelo próprio Westcott.

Ao que parece, não há muitas dúvidas de que Anna Sprengel e SDA eram personagens fictícias, e que suas comunicações foram forjadas por Westcott; após ver a Aurora Dourada bem lançada em seu caminho, Westcott anunciou o triste falecimento de Anna Sprengel, e com ela desapareceu também SDA E sabe-se que Westcott espalhou informações falsas sobre os Estudiosos Herméticos da AD, tal como ele então chamava a sociedade, para fazer com que ela parecesse ser "muito antiga", quando na verdade ele estava apenas alinhando seus primeiros iniciados.

Por que razão Willian Wynn Westcott, um respeitável funcionário público, teria se dedicado a práticas fraudulentas como essas, é um dos muitos mistérios que rodeiam a Aurora Dobrada. O historiador inglês Ellic Howe pode ter descoberto uma resposta quase um século depois, ao examinar os documentos antigos da sociedade. Howe mostrou a um perito em caligrafia vários documentos escritos por Westcott. O grafólogo insistiu que os textos não podiam ter sido todos escritos pela mesma pessoa: os estilos de caligrafia eram diferentes demais. Quando convencido por outras provas de que um único homem havia de fato escrito todos os documentos, o grafólogo concluiu que West­cott era um caso claro de dupla personalidade.

Outra explicação possível - que serviria também para esclarecer os motivos de alguns outros ocultistas vitorianos – é que Westcott pode não ter levado a história toda inteiramente a sério, e, portanto, não viu qualquer mal em seus pequenos enganos. (Ele, com certeza, não se envolveu nisso pelo dinheiro: cada membro pagava apenas dois xelins e meio por ano em taxas, e os gastos da ordem com incenso, vinho ritual, papéis e outros artigos semelhantes mal eram cobertos por seus magros ingressos). Talvez, apenas talvez, Westcott e alguns outros envolvidos nas sociedades secretas da época encarassem suas atividades somente como uma espécie de jogo, uma oportunidade para devanear, recitar abracadabras portentosos vestidos de mantos com capuz e compartilhar de palavras e sinais secretos com uma turma fechada de amigos - propósitos não muito diferentes dos que tinham os estudantes de universidades americanas que, também na mesma época, estavam formando sociedades secretas ou afiliando-se a elas.

Havia certamente um sentimento de excitação quase infantil em todo o empreendimento, tal como recordaria vários anos mais tarde Alfred Edward Waite, um destacado estudioso do ocultismo que presenciara os atos: "Nos teosóficos e outros círculos afins, os rumores acerca de uma ordem secreta de grandes pretensões corriam solto naqueles dias. Pessoas obscuras colocavam sigilos (selos) crípticos depois de seus nomes em comunicações inesperadas, como se para testar se eu já era membro. Pistas tenebrosas eram sugeridas em murmúrios abafados (...) alguma coisa que tinha a ver com essa história de fulgor obscuro. O nome de Wynn Westcott (...) pairava remotamente”.

Se de fato Westcott estava nisso mais pela diversão, o jovem escocês que recebeu a tarefa de dar forma plena aos rituais, Samuel Liddell Mathers, mostraria ser movido por deuses menos brincalhões. À primeira vista, Mathers pareceu ser bastante inofensivo. A.E. Waite descartou-o como mago bufonesco, e descreveu-o, de maneira não muito lisonjeira, como "uma pessoa estranha, com olhos meio de peixe". W. B. Yeats, que abandonou a teosofia em favor da Aurora Dourada, comentou que Mathers tinha "muita instrução, mas pouca erudição". Tendo passado anos inclinado sobre volumosos e misteriosos tomos na sala de leitura do British Museum, e possuindo uma veia teatral natural para vestimentas e cerimônias ornadas, Mathers, a pedido de Westcott, elaborou um conjunto de rituais impressionantes e esplêndidas insígnias para a ordem. Com o tempo ele foi ficando menos prestativo e aos poucos foi empurrando Westcott para o canto, tornando-se cada vez mais um autocrata.

Mathers era peculiar ao extremo. Segundo a esposa dele, Moina, que era mais conhecida na Aurora Dourada como Vesti­gia, nem ela, nem Mathers tinham "o que quer que seja a ver com qualquer ligação sexual - ambos nos mantivemos perfeitamente limpos". Ele sabia ser encantador. Yeats gostava de passar algum tempo com ele, e de vez em quando visitava os Mathers para uma estranha partida de xadrez a quatro, que colocava Yeats e Vestigia como parceiros contra Mathers e um espírito. Antes de fazer a jogada do espírito, Mathers olhava intensamente para a cadeira vazia de seu parceiro invisível.

Era raro que a megalomania de Mathers fosse atrapalhada pelos limites da realidade. Membro atuante de um grupo céltico marginal que queria restaurar os Stuart no trono de uma Escócia independente, acrescentou um patronímico escocês ao próprio nome, começando por chamar-se Samuel Liddell MacGregor Mathers e depois subindo de nível, para conde Mac­Gregor de Glenstrae, título que devia menos ao Burke's Peerage do que a sua própria imaginação fértil. Segundo algumas pessoas que o conheceram, ele por diversas vezes afirmou ser Jaime IV, - que não morrera na Batalha de Flodden em 1513, como em geral se acreditava, mas sobrevivera como adepto imortal. Yeats disse que Mathers "imaginava para si um papel napoleônico", em uma Europa transformada pelo retorno dos jacobinos, e "até oferecia cargos subordinados a pessoas inverossímeis". Cada membro da Aurora Dourada era identificado por um lema pessoal; o que Mathers escolheu era na língua gaélica e significava "régia é a minha tribo". Dentro da Aurora Dourada Mathers insistia, segundo suas próprias palavras, em "completa e absoluta submissão".

“Não ligo um átomo para o que você pensa, disse ele a um membro que se atreveu a questionar a autoridade dele. “Recuso-me terminantemente a permitir críticas abertas a minha atuação, ou qualquer discussão acerca dela (...) de você ou de qualquer outro membro”. Infelizmente para Mathers, os membros da Aurora Dourada formavam uma turma bem independente. As listas da ordem - com os membros de cinco diferentes templos, de Londres a Edimburgo e a Paris - incluíam muitas pessoas talentosas, um ou outro gênio e alguns que simplesmente desfrutavam de dinheiro ou prestígio demais para curvar a cabeça confortavelmente.

Vendo as coisas em retrospectiva, W. B. Yeats, que em 1923 ganhou o prêmio Nobel de Literatura, foi sem dúvida o iniciado mais ilustre da ordem. O poeta tinha com o oculto um romance de toda uma vida. Desde a infância ele lia histórias irlandesas de fantasmas e bruxaria e na adolescência procurara "pessoas que tentavam comunicar-se com os poderes do mal". Quando rapaz, participou de uma reunião em que um feiticeiro encapuzado - que trabalhava com um turíbulo, adagas, um crânio humano e outros implementos apropriados - cortou a garganta de um galo novo e derramou seu sangue em uma cuia enquanto recitava encantamentos. Yeats não viu serpentes aparecerem, como outros presentes na sala disseram ter visto, mas sentiu-se rodeado por nuvens negras más, tão ameaçadoras que julgou ser necessário lutar para não ser dominado. Como membro da Seção Esotérica da Sociedade Teosófica, juntou-se a Annie Besant em experiências nas quais, como escreveu a um amigo, “uma agulha suspensa por um fio de seda em uma caixa de vidro moveu-­se para adiante e para trás em resposta a minha vontade, algumas experiências também de natureza ainda mais estranha”.

Por três décadas, Yeats esteve tão profundamente envolvido na magia e na política da Aurora Dourada e das numerosas organizações que a sucederam que é difícil entender como ele tinha tempo para escrever. Declarou que a magia era, "depois da poesia, a mais importante busca de minha vida", e era claro que não via qualquer conflito entre sua arte e sua imersão nas questões do ocultismo. Quando criticado por um amigo por seus interesses místicos, Yeats disse que "não poderia ter escrito uma única palavra" de algumas de suas obras "se não houvesse feito da magia meu estudo constante".

"A vida mística é o centro de tudo que faço, tudo que penso e tudo que escrevo", declarou.

Outra artista famosa na Aurora Dourada foi a atriz Floren­ce Farr, que estrelou em peças de Henrik Ibsen e George Bernard Shaw e foi amante de Shaw por vários anos. Yeats disse que ela tinha "três grandes dons: uma beleza tranqüila (ou) um incomparável sentido de ritmo e uma bela voz". Tinha também um humor finamente temperado. Embora outros com freqüência fiquem com os créditos pelos chistes, aparentemente foi Florence Farr que declarou, na época do julgamento de Oscar Wilde - um caso de calúnia envolvendo o homossexualismo de Wilde – ­ “Não me interessa o que fazem, contanto que não o façam no meio da rua e assustem os cavalos das carruagens”.

Do mesmo modo que Yeats, Farr não era uma mera diletante em magia. Durante algum tempo na década de 1890, ela foi praemonstratrix, a principal instrutora de rituais do Templo de Ísis-Urânia da Aurora Dourada, em Londres; e consta dos registros que em certa ocasião ela despertou um espírito chamado Taphthartharath fervendo uma conserva de cobra em um "caldo infernal" de ingredientes mágicos. A vi­são da bela atriz, vestida com um manto branco com uma faixa amarela na cintura e carregando uma adaga enquanto cuida do cozido mágico, tornou-se uma verdadeira epifania da Aurora Dourada quando os outros participantes em volta do caldeirão são acrescentados à cena: um pintor, um corretor de valores e um engenheiro elétrico, todos vestidos do mesmo modo e portando espada, vela, corrente e lanterna. Shaw disse que sua amante estava "em violenta reação contra a moral vitoriana, em particular a moral se­xual e doméstica". Seu temperamento rebelde não deve ter facilitado as coisas para o pretendido autoritarismo de Mathers.

Tampouco poderia ser-lhe favorável a natureza igualmente rebelde de outra afiliada famosa, Annie Horniman. A presença de Horniman, filha de um rico e famoso importador de chá, veio a calhar para Mathers, pois era tão rica quanto ele era pobre. Generosa, ela era devotada ao palco, e seria lembrada fora da Aurora Dourada como construtora do famoso Teatro da Abadia, em Dublin. Conseguiu para Mathers um emprego como curador do museu do pai, e mais tarde estipulou uma anuidade para Ma­thers e sua esposa, que por acaso fora sua colega de escola. Tudo isso funcionou bem no início, mas com o tempo os Mathers, que na época estavam vivendo nas altas rodas de Paris às custas dela, ficaram tão extravagantes e exigentes que as finanças de Annie Horniman foram por água abaixo. O resultado foi um enorme tumulto na Aurora Dourada.

Outros notáveis da AD foram o escritor Algernon Black­wood, conhecido por suas histórias ocultistas; o astrônomo William Peck, chefe do Observatório de Edimburgo, e a psicanalista e romancista Dion Fortune, cujos livros muitas vezes abordavam temas sobrenaturais. Fortune acabou fundando sua própria sociedade ocultista, a Fraternidade da Luz Interior, que existe até hoje. Outro membro da AD, A. E. Waite – o estudioso que se lembrava do "fulgor obscuro" dos rumores que rodearam a fundação da ordem - foi descrito como uma das poucas pessoas dos tempos modernos que escreveram inteligentemente acerca da cabala.

O instrumento mais importante para Mathers em sua contínua luta pelo controle dos membros era sua alegada relação exclusiva com os Chefes Secretos da ordem. Estes eram mestres imortais e sobre-humanos, de certo modo semelhantes aos mahatmas dos teosóficos. Na época de Mathers, apenas ele e a esposa alegavam ter contato com eles, e ele guardava zelosamente sua presumida conexão. "Não posso dizer nada a vocês", declarou em um manifesto de 1896 a respeito dos Chefes Secretos. "Nem mesmo sei seus nomes terrenos. Conheço-os apenas por certos motes secretos; mas muito raramente cheguei a vê-los no corpo físico; e nessas raras ocasiões o encontro foi marcado astralmente por eles”.Só estar na presença desses adeptos, explicou, era como estar perto do "brilho de um relâmpago", exceto pelo fato de que a experiência era sustentada, e não momentânea. "Não posso conceber que um iniciado muito menos avançado possa suportar tal tensão, mesmo por alguns minutos, sem que advenha a morte", declarou Mathers, presunçosamente.

Segundo ele dizia, os Chefes Secretos transmitiram-lhe toda a antiga sabedoria e os rituais, que ele então passou para a Aurora Dourada. Disse que os Chefes se comunicavam com ele por clarividência, por instrumentos semelhantes em princípio aos tabuleiros dos Ouija, por "Voz Direta audível a meus ouvidos externos e aos de Vestigia" e mostrando-lhe livros antigos para copiar. "A tensão de tais labores tem sido, como podem entender, enorme", queixou-se ele, em especial a “provação de receber instruções para um ritual secreto particularmente rigoroso, "que eu achei que me mataria, ou a Vestigia, ou a ambos". Em 1892, Math­ers mudou-se para Paris e, alegando estar sendo guiado pelos Chefes Secretos, fundou uma segunda, ou mais interna, ordem da Aurora Dourada. Com o estabelecimento desse quadro de elite, que Mathers chamou de Ordem da Rosa de Rubi e da Cruz de Ouro (Ordo Rosae Rubeae et Aurea Crucis, ou simplesmente a RR et AC), a AD foi efetivamente transformada em uma academia de magos. O membro da Aurora Dourada que já houvesse passado pelos exames relativamente simples dos quatro graus externos da ordem tinha pela frente uma tarefa atemorizante. Precisava passar por cinco exames separados só para ser admitido na RR et AC. Uma vez com o pé na porta, por assim dizer, deveria passar por outras oito provas para chegar ao estado de theoricus adeptus minor - um adepto da ordem interna. Havia ainda mais cinco graus depois desse, mas quase ninguém além de Mathers e Westcott chegou a tais alturas. Com a RR et AC montada e funcionando sob a liderança de Mathers, a ordem exterior de Westcott tornou-se pouca coisa mais que uma casca vazia. O próprio Westcott pertencia ao grupo interior.

Os rituais da nova ordem central eram maravilhosas criações de Mathers. Por exemplo, no rito de iniciação da RR et AC, o candidato ingressava na abóbada dos adeptos, de sete lados e cerca de 2,50 metros de altura, com as paredes cobertas por símbolos cabalísticos cujas cores também traziam significados ocultos. A abóbada acomodava pelo menos quatro pessoas, juntamente com um altar - e um ataúde em que repousava o corpo de Christian Rosenkreuz, em geral representado por Mathers ou por Westcott. (Quando mais não fosse, esse colorido ritual serviu pelo menos para que Mathers se livrasse de Westcott de uma vez por todas. A idéia de ter um de seus legistas imitando um cadáver e deitado em um ataúde aparentemente não foi do agrado das autoridades londrinas, que, assim que souberam disso, tomaram as medidas necessárias para forçar Westcott a afastar-se da Aurora Dourada.) O clímax dramático do rito iniciá­tico era um terrível voto de segredo, cuja violação resultaria em "uma corrente mortal e hostil de vontade posta em movimento pelos Chefes Secretos desta ordem, pela qual eu posso cair morto e paralisado". Durante esse ritual, os candidatos juravam dedicar-se à "Grande Obra, que é purificar e exaltar minha natureza espiritual, que com ajuda divina eu possa (...) conseguir ser mais que humano (...) e que neste caso eu não abuse do Grande Poder a mim confiado".

A magia através da qual os iniciados usavam esse Grande Poder era misturada a partir de diversas fontes, além dos Chefes Secretos. Nutria-se da obra de John Dee, o matemático e astrólogo inglês com idéias ocultistas do século XVII que fora conselheiro da rainha Elizabeth I, e de dois antigos manuscritos franceses: A Magia Sagrada de Abra-Melin, o Mago, um tratado de tranqüilo misticismo que Mathers supostamente descobrira e traduzira, e A Clavícula de Salomão, o Rei, uma cartilha que instruía os magos a usarem roupas peculiares e a empregar figuras geométricas, espadas, varinhas de condão e cantilenas que levavam horas para ser entoadas.

Mathers não era o único criador dos rituais mágicos da Aurora Dourada; pelo menos um, a cerimônia usada pela atriz Florence Farr para invocar o espírito de Taphthartharath, foi escrito por um engenheiro elétrico de 23 anos de idade chamado Allan Bennett, um dos que se juntaram a Farr para pô-lo em prática. O ritual exigia muitas preparações e preparados: a pasta de amoníaco e as sementes de coriandro eram até fáceis de encontrar, mas, Bennett teve que escrever a um amigo para obter uma cobra conservada em álcool. O próprio ritual era longo e incluía algumas ameaças poderosas que podiam ser usadas pelo mago da arte (no caso, Florence Farr) se Taphthartharath demorasse a atender ao chamado. "Amaldiçôo-te e fulmino-te, Ó, Espírito", declamou ela. "Consigno- te para o mais baixo Inferno de Abaddon."

Presume-se que o espírito tenha finalmente aparecido ­pelo menos para dar alguma satisfação aos participantes, embora não haja registros a respeito de como seria a aparência dele; nem mesmo se sabe se ele pôde ser visto em sua forma física. Após ter sido obrigado a "ensinar-nos todos os Mistérios das Artes e Ciências Ocultas", Taphthartharath teve permissão para esgueirar-se de volta para sua residência habitual, com instruções para retornar "o mais depressa possível, em qualquer momento que te invocarmos e chamarmos".

Às vezes, a magia da Aurora Dourada era usada com propósitos médicos. Annie Horniman foi solicitada, por um membro de um grau inferior, a fazer alguma coisa pelo "pobrezinho do Charlie Sewell", uma criança com epilepsia. Horniman dedicou-­se a estudar o problema "no plano astral".

"Passei pelo Hexagrama dourado e pela Cruz vermelha", relatou mais tarde. Lá, no plano astral, ela pôde ver que a versão astral do menino tinha uma "bola azul e negra giratória seguindo­-o, presa à cabeça dele por um cordão". Ela colocou um talismã sobre o peito dele e fez alguns sinais de banimento. "A bola, que parecia estar viva, reagiu como se estivesse então morrendo e o cordão secou", escreveu. A seguir ela viu o ambiente da casa dele, que estava "cheio de diabretes negros, como moscas", de modo que o ajudou a segurar a espada dela e fez mais sinais. As anotações feitas por ela existem, juntamente com comentários feitos por Mathers ao resenhá-las ­"Não foi certo pôr o talismã sobre o peito dele. Se fosse colocado na frente dele, como um escudo, tudo bem." Mas não há qualquer indicação de que a doença de Charlie Sewell tenha melhorado depois do tratamento astral.

Um jornal ocultista, o Equinox, relatou os resultados de outro caso envolvendo o notório Aleister Crowley, o protegido brilhante mas de espírito negro de Mathers, que viria a se transformar em um fator de destruição na Aurora Dourada. Crowley - que, por acaso, publicava o Equinox - supostamente fez um talismã conhecido como “Tábua Flamejante do Querubim Águia de Júpiter”, para curar a mãe de outro membro, seriamente enferma. Como o colega não obedeceu às instruções de Crowley para "alimentar o talismã com incenso e dar-lhe orvalho para beber", no início ele quase matou a anciã, que foi "acometida de uma série de ataques violentos". Depois que o membro reconsagrou corretamente o talismã, porém, a mãe dele "rapidamente recuperou toda sua antiga força, e viveu até a idade de 92 anos". Ou, pelo menos, foi isso que o Equinox afirmou.

A despeito do juramento de "não abusar do Grande Poder", os iniciados eram às vezes acusados de usar a magia com más intenções. Certa vez, Bennett e Crowley convenceram-se de que W. B. Yeats estava usando a magia negra para atacar Crowley, porque - o raciocínio deles é de tirar o fôlego - tinha ciúmes dele por ser melhor poeta. De modo que conduziram um ritual não especificado para reagir a esse suposto ataque. O duelo presumido deve ter terminado empatado, pois nenhum dano foi relatado por nenhum dos lados.

Outro incidente envolveu um bastão de vidro pertencente a Bernnett, que supostamente estava investido de uma poderosa magia. Um teósofo conhecido de Bennett, que zombou da idéia de um "bastão fulminante mágico" viu-se subitamente paralisado pelo instrumento de que fizera pouco. Segundo a história, ele foi incapaz de mover-se por catorze horas.

Nos anos vinte, Dion Fortune afirmou ter sido submetida a um brutal ataque oculto por Vestigia Mathers, em punição por ter escrito alguns artigos de que a senhora Mathers não gostou. Fortune alegou ter começado por "desenvolver um sentimento geral de um vago mal estar" que "gradualmente amadureceu em um nítido sentimento de ameaça e antagonismo". Então, rostos de demônios começaram a aparecer-lhe em lampejos. Em seguida, diz a história, a vizinhança dela foi invadida por gatos negros, em tal número que o caseiro do vizinho "tirava montes de gatos da soleira da porta e do parapeito da janela com uma vassoura, e declarou que nunca na vida vira tantos". Quando Fortune encontrou um "gigantesco gato listado, duas vezes maior do que um tigre" em sua própria escada, soube que precisava reagir - apesar de o gato ter desaparecido quando ela olhou para ele. Ela afirmou ter viajado para o plano astral, onde se engajou em uma titânica batalha com Vestigia Mathers. Finalmente, com a ajuda dos Chefes Secretos, Dion Fortune prevaleceu, e o ataque terminou - embora mais tarde ela tenha descoberto que suas costas estavam "marcadas por arranhões como se houvessem sido unhadas por um gato gigantesco".

Poucos anos depois, uma moça chamada Netta Fornario, que pertencia a uma seita originária da Aurora Dourada e tinha negócios com Vestigia Mathers, foi encontrada morta em uma praia da ilha escocesa de Iona. Estava nua, exceto por um manto negro - uniforme de oficial da Aurora Dourada conhecido como hiereus. Em volta do pescoço dela havia uma corrente de prata enegrecida, e sua mão sem vida segurava uma longa faca. Um médico da região disse que Fornario havia morrido de ataque cardíaco. Dion Fortune discordou. O corpo estava arranhado, disse ela, sinal seguro de que a jovem fora vitimada por Vestigia Mathers no plano astral.

Muito antes da batalha astral de Dion Fortune com Vestigia Mathers, conflitos terrenos tanto de natureza filosófica como pessoal no seio da Aurora Dourada haviam fragmentado a ordem em diversas seitas sucessoras. O cisma mais devastador resultou do choque de vontades entre Samuel Mathers em Paris e os membros do Templo de Ísis-Urânia em Londres. Mathers afastou muitos dos membros em 1896 ao expulsar Annie Horniman da organização. A razão ostensiva foi a insubordinação - ela negou-se a assinar um compromisso de completa submissão aos editos dele - mas não há dúvidas de que ele também estava reagindo ao fato de Horniman ter cortado sua mesada de 200 libras esterlinas por ano.

Contudo, a ruptura final entre Mathers e os membros de Londres foi precipitada pela introdução de Aleister Crowley na Aurora Dourada. Crowley, que já estava trabalhando pesado para estabelecer sua reputação de homem mais perverso do mundo, foi admitido na ordem exterior em 1898, e logo lançou seu feitiço sobre Mathers, que rapidamente o promoveu. O comportamento de Crowley, porém, era ultrajante demais para a maioria dos membros da ordem em Londres, que desaprovavam suas atividades sexuais espalhafatosas. Em janeiro de 1900, o Templo de Ísis-Urânia negou.se a obedecer uma instrução de Mathers no sentido de iniciar Crowley na segunda ordem, a RR et AC. Ma­thers ficou lívido de raiva. Convidou Crowley a ir para Paris e iniciou-o naquela cidade.

Em março de 1900, Mathers e os ofIciais da Aurora Dourada em Londres estavam trocando acusações e ameaças. Mathers enviou um edito exonerando Florence Farr de seu posto como chefe da segunda ordem e outro abolindo um comitê londrino que estava estudando a validade da liderança dele. Ele ameaçou esmagar os insurgentes com uma "Corrente Punitiva" gerada pelos Chefes Secretos e Ocultos. E então despachou nada menos que Aleister Crowley para reprimir a rebelião.

O resultado foi uma confrontação quase farsesca que foi chamada de Batalha de Blythe Road. No dia 17 de abril, Crowley e outro membro leal a Mathers invadiram a sede londrina da ordem, no número 36 da Blythe Road, e ocuparam a propriedade. Em pouco tempo, Florence Farr e outros adversários de Mathers chegaram. Convocaram para auxiliá-los um oficial de justiça, que despejou os invasores. Os partidários de Farr trocaram sem demora as fechaduras.

No dia 19 de abril, Crowley reapareceu em Blythe Road, com um disfarce que deve ter assustado os vizinhos. Estava vestido com roupas típicas das Highlands escocesas, tinha sobre o rosto uma máscara negra de Osíris e portava uma adaga. Os rebeldes livraram-se dele chamando mais uma vez a polícia. Crowley voltou para Paris, onde encontrou Mathers sacudindo umas ervilhas secas em uma bacia e invocando os demônios Belzebu e Typhon­-Set para que lançassem seu poder malévolo contra os que se opunham a ele.

Pelo jeito, os demônios deixaram-no na mão. Os londrinos expulsaram Mathers, que a partir de então desapareceu quase por inteiro dos anais da Aurora Dourada. Pouco se sabe do que se passou com ele depois. Morreu em Paris em 1918.

Livre de sua bête noir despótica, o Templo de Ísis-Urânia tentou refazer-se sob a enérgica liderança de Yeats, mas as lutas internas tolheram seus esforços desde o início. Após cerca de dois anos, o templo dividiu-se em várias facções. Os membros cuja principal preocupação era mística mantiveram o controle do templo sob a liderança de A.E. Waite, enquanto Yeats e outros que estavam interessados principalmente em magia realinharam-se como uma seita dissidente chamada Stella Matutina, ou Estrela da Manhã. Ao mesmo tempo, diversos templos que permaneceram leais ao defunto Mathers começaram a chamar-se de Alfa e Ômega, uma sobrevivência da AD que acabou tendo vida curta.

 

Hermeticismo

Fusão da religião grega com a antiga religião do Egito, as crenças do hermeticismo estavam contidas  em um corpo de textos conhecido como Corpus Hermeticum. Essa obra, de autor desconhecido, recebeu esse nome devido ao personagem principal, Hermes Trimegisto (Hermes, o Três Vezes Grande). Alguns ocultistas alegavam que o autor era o próprio Trimegisto, um sábio egípcio que viveu no tempo dos faraós e foi contemporâneo de Moisés. Outros o associaram ao deus grego Hermes, cujo equivalente egípcio, Toth, era o escriba dos deuses e senhor dos livros sagrados.

O Corpus Hermeticum é apresentado na forma de diálogos entre Trimegisto, Toth e diversas outras deidades egípcias, inclusive Ísis. Os estudiosos salientam que pouca coisa do texto é de fato original; na verdade, grande parte da visão do mundo dos herméticos é baseada na filosofia de Platão. Os herméticos viam o mundo em termos de luz e trevas, bem e mal, espírito e matéria. Do mesmo modo que seus contemporâneos, os gnósticos, os praticantes pregavam um dualismo mente-corpo, e a salvação através da possessão do conhecimento verdadeiro e divino.

Da quantidade colossal de obras escritas atribuídas a Hermes Trimegisto não foram muitas as que sobreviveram, para além de quatorze breves textos escritos em grego e uma série de fragmentos preservados por autores cristãos. Tais obras exprimem noções místicas e filosóficas próprias desta época primitiva. A mais conhecida dentre elas intitula-se Poimandres, o Bom Pastor, da qual alguns passos apresentam uma semelhança notável com o Evangelho de São João, enquanto que outros fazem lembrar o Timeu de Platão. Também poderemos vislumbrar nelas reflexos do pensamento judaico, tal como é expresso por Fílon. Além destes escritos, atribuem-se a Trimegisto alguns tratados de magia, cujo tema fulcral é a astrologia e onde a alquimia é tratada de um modo um tanto ou quanto vago.

Os livros herméticos foram considerados pelos alquimistas como um legado que Hermes lhes fez dos segredos que estavam dissimulados em alegorias, a fim de que a preciosa sabedoria não fosse cair em mãos profanas. Somente os sábios eram capazes de se orientar neste labirinto místico. O passo de Hermes mais freqüentemente citado, o credo dos adeptos, era a inscrição descoberta numa placa de esmeralda ”nas mãos da múmia de Hermes, num fosso recôndito, onde jazia o seu corpo enterrado”,situado segundo a tradição, na grande pirâmide de Gizé. O documento tem o nome de “Placa de Esmeralda” e está por demais intimamente relacionado com a alquimia para não o reproduzirmos na íntegra:

“ É verdade, sem falsidade e extremamente real: aquilo que está no alto é igual àquilo que está em baixo, para perpetrar os milagres de uma coisa. E, como todas as coisas derivaram de uma, pelo pensamento de uma, assim todas as coisas nascem desta coisa, por adoção. O sol é o seu pai, a lua é a sua mãe. O vento trouxe-a no seu ventre, a terra é a sua arma. Eis o pai de toda a perfeição do mundo. A sua força e poder são absolutos quando transformados em terra: tu separarás a terra do fogo, o sutil do grosseiro, suavemente e com cuidado. Ela ascende da terra até ao céu e desce de novo à terra para receber o poder das coisas superiores e inferiores. Por este meio, tu terás a glória do mundo. E, devido a isto, toda a obscuridade fugirá de ti. No interior disto está o poder, o mais poderoso de todos os poderes. Pois ela superará todas as coisas sutis e penetrará todas as coisas sólidas. Assim foi criado o mundo. A partir disto existirão e surgirão adaptações admiráveis cujos meios para atingi-las estão aqui. E, por esta razão, chamo-me Hermes Trimegisto, possuindo as três partes da filosofia do mundo. O que eu disse sobre as operações do sol já se realizou”.

Os alquimistas reconheciam nestas alegorias as várias fases do processo de fabricação do ouro, ainda que a ambiguidade dos termos se prestasse a infinitas interpretações.

 

Illuminati

 

Em 1776, mesmo ano em que Cagliostro – curandeiro, fundador de um rito egípcio de Maçonaria - se estabeleceu em Londres, um professor bávaro de direito chamado Adam Weishaupt fundara uma organização filosófica de ambições sem paralelo. Chamada de Ordem dos Illuminati, essa agremiação durou apenas cerca de dez anos antes de ser proibida e erradicada pelo governo. Contudo, sua influência e notoriedade subsistem até hoje, em parte devido à profunda associação que ela formou com os maçons. O propósito declarado da Ordem dos Illuminati era "estimular uma visão humana e sociável; inibir todos os impulsos viciosos; apoiar a Virtude, onde quer que seja ameaçada ou oprimida pelo Vício; promover o progresso das pessoas de mérito e espalhar os conhecimentos úteis entre as numerosas pessoas que estão hoje privadas de toda educação". Os princípios desse manifesto podem parecer tão inatacáveis quanto os das constituições maçônicas de 1723. O que Weishaupt deixou de dizer, porém, era tão importante quanto o que disse. Ele acreditava que os jesuítas que dominavam a Bavária eram opressores, responsáveis pelas deploráveis condições do país e do povo, e que o poder enraizado da Igreja devia ser desafiado e, com o tempo, substituído. O que Weishaupt buscava, escreveu George Johnson, era um mundo "em que as divisões de classe, religião e nação fossem superadas e todos os povos se unissem em uma fraternidade universal. Tal como o filósofo francês Rousseau, Weis­haupt tinha visões de uma época em que a humanidade reconquistaria um sentido natural de igualdade e felicidade, sem corromper-se com a religião organizada e com as distinções de classe". Seu objetivo supremo, embora ele tenha tido o cuidado de não o declarar, era uma revolução sem sangue que estabelecesse o milênio na terra.

Por mais ingênuas que fossem as metas de Weishaupt, ele tinha táticas astutas. Seus discípulos recebiam um rigoroso programa de estudos, progredindo através de idéias cada vez mais complexas, até conquistarem o título de areopagitas (membros da antiga corte suprema de Atenas). Cuidando para que suas idéias não provocassem os poderosos, Weishaupt erigiu um muro quase impenetrável de segredos em torno de sua ordem: somente os areopagitas podiam saber que ele era o líder. Os comunicados escritos entre os membros tinham que ser em código. Os líderes illuminati e os locais de reunião das lojas recebiam nomes secretos tomados dos tempos antigos. Os membros eram estimulados a espionarem-se e a fazer relatórios para seus superiores.

A maçonaria, para Weishaupt, oferecia um campo de recrutamento já pronto. Sabia o bastante sobre os maçons para ter a certeza de que tais livre-pensadores seriam receptivos a sua mensagem e acrescentou ao mapa organizacional dos illuminati várias fileiras que permitiriam que os maçons se juntassem a eles. Da Bavária, os illuminati difundiram-se com rapidez para a Áustria, Suíça, Boêmia, Itália e Hungria, atraindo milhares de membros, muitos deles maçons. Então, em 1794, a grande aventura de Weishaupt começou a azedar.

Um novo soberano muito mais conservador, o duque Carlos Teodoro, tomou o poder na Bavária e imediatamente emitiu um edito que proibia todas as sociedades sem autorização. Um segundo edito, no ano seguinte, citou explicitamente os maçons e os illuminati e isso foi o bastante para Weishaupt, que fugiu da capital, Munique, e procurou refúgio em Regensburg. O colapso final ocorreu quando os homens do duque atacaram a casa de um ex-membro dos illumi­nati e acharam diversos documentos incriminatórios, inclusive cartas escritas com o código misterioso. Entre os escritos confiscados havia alguns que, para a época, inclinavam a balança do livre-pensamento perigosamente para o lado da ilegalidade e da imoralidade: tratados em defesa do suicídio, descrições de experiências químicas, uma revelação de que Weishaupt procurara um aborto para uma mulher que ele havia engravidado. Os papéis foram publicados por uma comissão governamental, e a lenda negra nasceu.

Os illuminati tornaram-se a sensação da Europa. Até 1790, mais de cinqüenta obras sobre o grupo haviam sido publicadas, detalhando esquemas diabólicos e as práticas pagãs da ordem e, com freqüência, implicando nelas os maçons, para completar o serviço. Diversos escritores especulavam que os illuminati não tinham se dissolvido, mas apenas passado para a clandestinidade.

Quando o grande levante de 1789 destronou a monarquia e a igreja na França, muitas pessoas, assustadas com um mundo que lhes parecia estar escapando ao controle, procuraram por um culpado. Os maçons e a Ordem dos Illuminati eram candidatos convenientes, até lógicos. As pessoas não haviam deixado de notar que o símbolo maçônico do triângulo aparecera nos emblemas de grupos revolucionários franceses, nem que alguns destacados líderes da revolta, como Lafayette e o duque de Orléans eram de fato maçons. O que não estava sendo levado em conta era que, ao mesmo tempo em que alguns maçons assaltavam a Bastilha, outros davam seu apoio à ordem estabelecida. Para alguns, a prova da cumplicidade maçônica estava no sempre persuasivo conde Cagliostro. De sua cela em uma prisão italiana, ele subitamente anunciou ter conhecimento de uma conspiração mundial de illuminati e maçons. Isso parece ter sido uma tentativa desesperada - e fracassada - do conde para obter clemência.

O que hoje em dia se chama teoria da conspiração surgiu na avalanche de livros, folhetos e artigos denunciando os illuminati e ligando-os a uma lista cada vez maior de supostos conspiradores. O escopo das acusações reflete-se no título de um livro contra os illuminati publicado em 1797: Provas de uma Conspiração contra Todas as Religiões e Governos da Europa, Perpetrada em Reuniões Secretas de Maçons, Illuminati e Sociedades de Leitura, Colhidas de Boa Fonte. O livro foi um sucesso de vendas internacional e, trinta anos depois, quando os maçons foram implicados no desaparecimento de William Morgan de Batávia, muitos americanos tiveram a idéia de tirar um exemplar poeirento do Provas de uma Conspiração da prateleira e folheá-lo de novo.

O pânico anti-illuminati atingiu seu auge na virada do século XIX, e numerosas figuras políticas americanas importantes, que por acaso também eram maçons, viram-se na Berlinda. Quando um ministro luterano escreveu a George Washington expondo seus temores, Washington respondeu que sabia dos "nefandos e perigosos planos e doutrinas dos illuminati", mas que tinha a certeza de que a maçonaria americana não estava envolvida. Thomas Jefferson leu Provas de uma Conspiração e outros folhetos anti-illuminati, e não lhes deu importância. "Posto que Weishaupt vivia sob a tirania de um déspota e dos sacerdotes, sabia que a cautela era necessária até mesmo para difundir informações, e os princípios da moralidade pura", escreveu Jefferson. “Isso deu a suas opiniões um ar de mistério, e serviu de fundamento para que o banissem (...) e é o pretexto dos delírios contra ele (...) Se Weishaupt houvesse escrito aqui, onde o segredo não é necessário em nossos esforços para tornar os homens sábios e virtuosos, ele não teria pensado em qualquer esquema secreto para tal propósito”.

Muitos americanos pareciam fazer o mesmo raciocínio de Jefferson, e o espectro da aliança illuminati - maçons nunca se agigantou tanto nos Estados Unidos quanto em outras partes. Apesar disso, desde então, o nome dos illuminati faz aparições ocasionais nas obras de teóricos da conspiração da periferia política americana. Do mesmo modo que alguns maçons queriam acreditar que eram os herdeiros espirituais dos cavaleiros das Cruzadas, alguns americanos querem crer que a obra iniciada pelos illuminati está sendo continuada pela Comissão Trilateral, pela diretoria do Banco Central ou por humanistas seculares. George Johnson observou que Provas de uma Conspiração, com 170 anos de idade, foi reimpresso em 1967 pela John Birch Society, que aparentemente considerava os illuminati como um perigo claro e presente. De acordo com um grupo alternativo, relata George Johnson, "o símbolo da conspiração dos illuminati aparece nas costas da nota de um dólar: um olho que tudo vê sobre uma pirâmide, zombando de nós com sua mensagem oculta a cada vez que pagamos um dólar, em uma rede concebida para manter-nos nas trevas".

Para melhor entendermos a força tanto do movimento illuminati quanto da reação a ele contrária, referimo-nos aos estatutos dos illuminati bávaros, redigido em 1781, em que os arquitetos dessa sociedade supersecreta prometiam ser "tão clandestinos quanto possível, pois tudo o que é oculto e secreto tem uma atração especial para os homens; atrai o interesse dos de fora e reforça a lealdade dos de dentro".

 

Maçonaria

 

Bem no fundo da rica história política americana permanece oculto e enterrado o nome de William Wirt. No entanto, em 1832, quando ele concorreu para a presidência dos Estados Unidos, sua votação foi considerável. Dos 24 estados então existentes, venceu em Vermont e teve 8 por cento dos 1.262.755 votos do total nacional. Ele concorreu como candidato do Partido Antimaçônico. Hoje em dia, é claro, o grupo fraternal e de serviços conhecido como Maçons Livres e Aceitos é um esteio seguro da estrutura social do mundo desenvolvido. Apenas nos Estados Unidos, cerca de 16 mil lojas recebem vários milhões de membros maçons e os principais cidadãos de muitas cidades consideram um privilégio fazer parte de uma loja. De certo modo, porém - na observância de rituais ocultos, na profusão de símbolos e títulos honoríficos e na linguagem cerimonial altissonante -, a ordem maçônica continua a ser a sociedade secreta que sempre foi, por incontáveis séculos. Mas no tempo de William Wirt os hábitos dos maçons faziam com que eles fossem objeto de amplos temores e suspeitas.

Todo o sucesso eleitoral de Wirt deveu-se principalmente a uma figura ainda mais obscura do que ele: um homem chamado William Morgan, que teve um destino estranho em 1826, na pequena cidade de Batávia, no norte do estado de Nova York. Morgan era casado, tinha 52 anos de idade e era um artesão sem terra que vagava de um lugar para outro. Em suas viagens, descobriu alguns dos segredos cuidadosamente guardados dos maçons, um golpe que deixou nervosos os membros das lojas locais. Avisos sobre Morgan espalharam-se rapidamente por toda a área. A seguinte nota apareceu em um jornal da cidade vizinha de Canadai­gua, em Nova York, no dia 9 de agosto de 1826: “Se um homem chamado William ­Morgan intrometer-se na comunidade, é preciso cuidado, particularmente para a FRATERNIDADE MAÇÔNICA. Morgan esteve nesta aldeia em maio passado e sua conduta enquanto esteve aqui e em outros lugares exige esta nota (...) Morgan é considerado um vigarista e um homem perigoso. Há pessoas nesta aldeia que ficariam felizes em ver esse capitão Morgan”.

Morgan, cujo título militar autoproclamado era tão duvidoso quanto suas intenções acerca dos maçons, concebera um plano para transformar seus conhecimentos especiais em lucro. Contratou com o editor do jornal Advocate, de Batávia, um certo coronel David C. Miller, a publicação de um livro expondo as maquinações da maçonaria. O otimista Morgan estimava que o volume pudesse render-lhe 2 milhões de dólares, na época, uma soma estupenda.

Não havia muitos motivos para os maçons de Batávia ficarem tão incomodados com o esquema de Morgan; livros semelhantes, produzidos na Europa, há muito podiam ser encontrados nos Estados Unidos. Mesmo assim, os membros da loja local - que incluía cinco juízes, o xerife, seis médicos e o governador da aldeia ­sentiram-se impelidos a agir. Alguns fizeram com que Morgan fosse preso por uma dívida inexistente de 2 dólares e 68 centavos. Na noite seguinte, quatro maçons foram até a cadeia, pagaram a falsa dívida de Morgan, jogaram-no em uma carruagem fechada e partiram às pressas. Morgan nunca mais foi visto em Batávia. Pessoalmente uma figura patética, Morgan assumiu proporções heróicas depois de desaparecer. Seu sócio, Miller, encontrou um modo de tornar o livro uma sensação: imprimiu 50 mil panfletos anunciando com destaque o rapto e possível assassinato de Morgan e pedindo informações. Na circular, não aparecia a palavra "maçom", mas todos sabiam quem ficara irritado com Morgan. Era de conhecimento público também que os maçons ameaçavam com terríveis castigos os que divulgassem suas práticas. Assim, começou a reação. Na pequena cidade de Pavillion, a cerca de 19 quilômetros de Batávia, um importante ministro batista denunciou a maçonaria como "obscura, infrutífera,            desmoralizante, blasfema, homicida, anti-republicana e anticristã - contrária à glória de Deus e ao bem da humanidade". Os boatos eram numerosos: a garganta de Morgan fora cortada; ele havia sido empurrado nas cataratas do Niágara; tivera sua língua arrancada; fora enterrado nas areias do lago Ontário. Uma versão encantadoramente engenhosa    afirmava que os maçons inclinaram uma árvore, colocaram Morgan no buraco deixado pelas raízes e depois recolocaram a árvore em seu lugar, para esmagá-lo. Isso foi apenas o começo. Depois que o governador de Nova York, DeWitt Clinton, que também era maçom, convocou uma sucessão de grandes júris para determinar as circunstâncias do desaparecimento de Morgan, os inimigos da maçonaria, que há muito estavam em silêncio, surgiram por toda parte, furiosos. Em todo o nordeste e meio-oeste, onde o caso Morgan tivera publicidade, os maçons foram colocados no ostracismo. Ministros e professores maçons eram intimados a deixar a ordem, sob pena de perderem os empregos. Maçons foram rejeitados como jurados e eram insultados nas ruas. O caso Morgan abrira um reservatório de hostilidade popular contra as seitas secretas em geral e contra os maçons em particular. Figuras políticas que haviam abraçado a maçonaria, entre elas o destacado senador Henry Clay, de Kentucky, passaram a julgar prudente romper seus laços com a organização. O ex-presidente John Quincy Adams declarou que "a maçonaria deveria ser abolida para sempre. Ela é errada, essencialmente errada - uma semente de mal que nunca poderá produzir qualquer bem. A existência de uma ordem como essa é uma nódoa na moral de qualquer comunidade".

Nada, além de rapto, foi provado contra os que sumiram com Morgan de Batávia; é provável que tenham simplesmente levado ele para o Canadá, com uma bela soma para mantê-lo quieto. Mas a questão do bem-estar de Morgan quase foi deixada de lado em meio ao clamor popular. A afiliação na ordem despencou e dúzias de lojas suspenderam suas atividades. Apesar de tudo, havia membros teimosos, como Daniel B. Taylor, bastião da loja de Stony Creek, no estado de Michigan, que literalmente manteve a chama da maçonaria acesa em sua hora mais negra. "Nas noites de loja", escreveu o cronista dos maçons do estado, James Fairbairn Smith, "assim que a diligência chegava trazendo o correio, ele ia apanhar seu jornal e dirigia-­se para a sala da loja. Lá chegando, acendia uma vela junto à janela e sentava-se para ler. Se não viesse mais ninguém, o irmão Taylor esperava a hora habitual de 'fechar a loja', e então apagava a vela, trancava a porta e ia para casa”.

Durante a década de 1840 a controvérsia foi morrendo aos poucos e nunca mais voltou com tal virulência, mas um rastro de hostilidade acompanhou a seita na Inglaterra desde seus primeiros dias, quando se achava que era uma ameaça para a Igreja e para a coroa. Ao longo dos séculos os maçons têm sido acusados - por aqueles que vêem maquinações por trás de cada acontecimento ou tendência mundial - como parcialmente responsáveis pela Revolução Francesa, pela ascensão tanto do fascismo quanto do comunismo e até mesmo pelas brutais proezas de Jack o Estripador em Londres. Ao mesmo tempo, quando a loja local se transforma em um traço familiar e confortável da paisagem cívica, em geral os abalos da desconfiança desaparecem lentamente. Na União Soviética, quem diria, um professor chamado Valery Nikolaevich Emelyanov emitiu um alerta terrível em uma conferência patrocinada pelo Partido Comunista, em 1974. Falou de uma conspiração de sionistas e maçons para apoderar-se do mundo no ano 2000. A "pirâmide judaico-maçônica", explicou ele, aludindo astutamente a um conhecido símbolo maçônico, controlava "80 por cento da economia nos países capitalistas e de 90 a 95 por cento dos meios de informação".

O objeto de tanta temerosa precaução tinha suas origens em uma espécie de sindicato de pedreiros da Inglaterra medieval. O termo "maçom livre" já aparece nos registros da cidade de Londres em 1375. Referia-se a pedreiros que tinham permissão para viajar pelo país, numa época em que o sistema feudal mantinha a maioria dos camponeses presa à terra. Ao contrário dos membros de outros ofícios - ferreiros e curtidores, por exemplo -, os pedreiros reuniam-se em grandes grupos para trabalhar em projetos majestosos e gloriosos, mu­dando-se ao terminar um castelo ou uma catedral para o próximo edifício. Para proteção, educação e ajuda mútuas, os maçons uniam-se em uma loja local - um edifício erguido no canteiro de obras, onde os trabalhadores se alimentavam e descansavam. Com o passar do tempo, a palavra "loja" passou a significar um grupo de pedreiros estabelecido em um determinado lugar. Em um livro de 1983, o jornalista americano George Johnson explicou a popularidade dessas equipes. “Os pedreiros dos séculos XIV e XV eram tanto arquitetos quanto trabalhadores braçais. Para os não-iniciados, seu trabalho parecia sagrado. Desde o antigo Egito, os grandes edifícios de pedra eram monumentos ao poder, que celebravam a magia dos sacerdotes e o direito divino dos reis. Para os estranhos, homens armados de cinzel, de compassos, réguas, níveis e esquadros faziam os templos crescerem no solo”.

Para simplificar, os pedreiros tinham trabalhos exclusivos e atraentes, estavam cônscios de seu privilégio especial e muito zelosos acerca dele. Em uma época sem patentes nem direitos de autor, eles guardavam zelosamente os segredos e padrões de seus ofícios. Para proteger a integridade desses segredos, bem como o próprio prestígio, era necessário garantir que todos aqueles que afirmassem conhecer as artes da construção houvessem sido, de fato, treinados adequadamente. A preocupação era legítima, posto que os pedreiros andantes medievais encontravam-se com freqüência entre estranhos, que às vezes afirmavam falsamente serem praticantes do ofício, em uma tentativa de arrancar segredos. Para afastar esses impostores, os pedreiros construíram um corpo cada vez maior de palavras e frases em código, sinais de reconhecimento e apertos de mão secretos. Faziam certas perguntas de um certo modo especial, e a resposta correta atestava que o recém-chegado estava qualificado para o trabalho.

No século XVII, com o crescimento do número e do prestígio dos pedreiros, algumas lojas começaram a admitir membros honorários, que não eram pedreiros. A Companhia dos Pedreiros de Londres fundou a Acepção, uma organização paralela com esse propósito específico, em 1619. Ela admitia como "pedreiros aceitos" homens que não pertenciam à companhia, mas que estavam dispostos a pagar dobrado pela taxa de iniciação. Então, em 1717, quatro lojas em Londres criaram um organismo de supervisão chamado de grande loja, cujas reuniões anuais atraíam considerável atenção, organizando um movimento em rápido crescimento. Começara a transformação histórica da maçonaria, de uma simples guilda de ofício em uma poderosa organização social.

É claro que os maçons não escancararam as portas de suas lojas para qualquer um. Descobriram que podiam atrair a nata da sociedade progressista londrina: membros do clero e das classes superiores, filósofos e príncipes livre-pensadores. Por que aristocratas e intelectuais queriam fazer parte de uma guilda de ofício não está claro, mas o caráter secreto da maçonaria, em si mesmo, parece ter sido muito atraente. Muitos candidatos à iniciação esperavam aprender os antigos mistérios e a sabedoria oculta que se achava que os maçons possuíam. Além disso, havia um crescente interesse por arquitetura e por antiguidades entre os amadores abastados. Qualquer que fosse o motivo, entre 1737 e 1907 um total de dezesseis príncipes passou pelos elaborados rituais de iniciação como maçons. Quatro deles tornaram-se reis. Paradoxalmente, a mensagem maçônica que tanto atraía os membros das fileiras privilegiadas era de fraternidade universal - o valor de cada homem, independentemente de sua condição social.

O primeiro Livro de Constituições maçônico foi redigido por um ministro da Igreja da Escócia, o Dr. James Anderson, e publicado na Inglaterra em 1723. O Constituições foi impresso pela primeira vez nos Estados Unidos em 1734 por um grão-mestre maçom, um certo Benjamin Franklin, de Filadélfia. O histórico documento declarava ousadamente que, na atmosfera de camaradagem da loja, os que pertenciam a religiões diferentes deveriam ser capazes de associar-se e discutir novas idéias. "Embora nos Tempos antigos os Maçons assumissem cada religião do País ou Nação, fosse qual fosse", explicava o Constituições, "hoje é considerado mais oportuno apenas obrigá-los àquela religi&atil